| Ana Nzinga Mbandi
NGOLA
(1582 – dezembro 1663)
“Entre os negros com quem tive ocasião
de conversar, não encontrei nenhum que superasse esta
rainha pela generosidade de alma ou sabedoria de governação...
ela revelava grande destreza nos assuntos políticos,
perspicácia e prudência nos assuntos de família”,
escrevia Cavazzi, missionário capucho que, durante algum
tempo, foi confessor desta mulher extraordinária.
Ela nasceu em 1582, na família do mani do Ndongo,
reino localizado no território da actual Angola. O nome
do título do rei, Ngola, deu origem à denominação
deste país. O pai da menina, Ngola Kiluangi, mantinha
relações de paz armada com os portugueses de Luanda
(onde se encontrava a sede do governador). A situação
veio a deteriorar-se após a sua morte, ocorrida por volta
de 1617, quando o seu filho e sucessor, Ngola Mbandi, assumiu
o poder no Ndongo. Naquela altura, os portugueses ampliaram
consideravelmente o tráfico de escravos e empreenderam
uma série de incursões para o interior do continente,
na esperança de, além de captura de escravos,
apoderar-se das imensas reservas de prata que, segundo se dizia,
existiriam nas áreas do interior. Ngola Mbandi lançou
uma campanha militar contra os portugueses, tendo antes suprimido
a resistência e a rivalidade dentro da família,
assassinado o seu sobrinho, filho da sua irmã, Nzinga,
e deportado ela própria. Do seu ponto de vista, foi uma
prudência necessária, já que segundo os
princípios do direito materno que vigoravam naquelas
terras, era precisamente o sobrinho, filho da irmã, quem
era o primeiro sucessor e, por consequência, o adversário
mais perigoso.
Porém, a campanha militar falhou. A sua tropa pouco disciplinada,
de tipo miliciano (e não existia outro tipo de tropa
nos estados africanos pré-coloniais), não conseguiu
resistir à pressão do exército profissional
do Governador de Angola. A capital, Mbanza Cabana, caiu nas
mãos dos portugueses, a família foi aprisionada,
o próprio Ngola Mbandi refugiou-se nas ilhas Kwanza,
de difícil acesso. Os autores contemporâneos escreviam
que embora “os portugueses tivessem ganho a guerra, não
conseguiram ocupar o território”.
O novo governador procurava entendimento com o governante do
Ndongo, uma vez que todas as rotas de comércio estavam
bloqueadas, com a própria cidade de Luanda cortada dos
mercados de víveres. Por isso, a amizade com os aristocratas
locais era uma condição indispensável para
garantir o tráfico regular de escravos que eram cada
vez mais procurados para o trabalho escravo nas plantações
e nas minas do Brasil. Os antepassados de actuais brasileiros
de pele escura são oriundos precisamente de Angola, mantendo,
até aos nossos dias, as suas crenças, folclore,
e alguns costumes de africanos.
Em 1621, Nzinga foi enviada para negociar com os portugueses,
já que o irmão, seu rival, viu-se obrigado a reconhecer
as suas invulgares virtudes. Foi o seu primeiro aparecimento
na cena histórica. A delegação do soberano
local foi recebida com grande aparato, inclusive salvas de canhões.
Os portugueses ficaram muito impressionados com o sentido de
auto-respeito e astúcia dela. Descreve assim Cavazzi
este encontro – “Quando o vice-rei lhe concedeu audiência,
ela, ao entrar na sala, notou que lá estava no lugar
mais nobre apenas uma poltrona de veludo, ornada de ouro que
se destinava ao vice-rei, havendo do lado oposto um riquíssimo
tapete e umas almofadas de veludo... destinados a soberanos
etíopes (era assim que, à semelhança da
Bíblia, se chamava a todos os africanos – E.L.). Sem
se atrapalhar e sem dizer uma única palavra, ela fez
sinal a uma das suas damas para que se ajoelhasse e se fizesse
de cadeira, sentou-se em cima das costas dela e permaneceu sentada
até ao fim da audiência”. Deste modo Nzinga mostrou
que se considerava uma participante de pleno direito das negociações,
e não um vassalo submisso de Portugal.
Segundo testemunhas, “ela exigia paz com dignidade, propondo
estabelecer uma união duradoura e sólida e mostrou
que havia razões fortes e evidentes que faziam com que
a paz fosse indispensável tanto para os portugueses como
para o rei que a enviara. Deixou admirado, pasmado e convencido
todo o Conselho”, e, “convencidos e vencidos pelas razões
que avançara, os titulares superiores e os membros do
Conselho nada puderam opor às propostas dela”. O acordo
foi celebrado. Calculando que uma mulher tão inteligente,
decidida, orgulhosa podia vir a ser uma aliada vantajosa e segura,
os portugueses convenceram-na a baptizar-se, tomando o nome
de Ana (em honra da esposa do governador português que
também participou na cerimónia).
Em 1624, Ngola Mbandi morreu, em circunstâncias pouco
claras. Nzinga, ao tornar-se a única governante, renunciou
ao cristianismo e rompeu a união com os portugueses.
Iniciou a luta contra eles, “dirigindo-se a deuses falsos e
cumprindo a vontade deles”, como escreviam os cronistas. Na
verdade, ela estava a cumprir a vontade de seus súbditos,
descontentes com o tráfico de escravos praticado pelos
europeus.
Porém, o primeiro passo que deu não foram operações
militares, mas, sim, o envio de uma mensagem para o novo governador
de Angola, Fernando de Sousa, exigindo que os portugueses evacuassem
as fortalezas localizadas no interior (Mbaka, etc.). O momento
para tal foi escolhido muito oportunamente, já que naquela
altura emergiu na arena do comércio mundial a Companhia
Holandesa das Índias Orientais, fundada em 1621. No Verão
de 1624, os seus navios haviam queimado seis navios portugueses
no porto de Luanda e ameaçavam o domínio de Portugal
naquela parte do globo.
Paralelamente, ela começou a preparar o seu exército
que ia crescendo depressa à custa dos escravos fugitivos
a quem prometia a liberdade. Alguns portugueses queixavam-se
de terem perdido de 100 a 150 escravos cada um. Ana Nzinga soube
também atrair para o seu lado as tribos vizinhas, geralmente
hostis umas às outras. Foi então quando, em 1625,
depois que mais uma ronda de negociações acabou
num impasse e a guerra era iminente, estando as tropas de Nzinga
preparadas, que, servindo de pretexto imediato para o início
das hostilidades a proclamação de um aliado dos
portugueses, Ari Ngongo, como soberano do Ndongo, Nzinga enviou
as suas tropas e em resposta a isso, Luanda declarou-lhe guerra,
formalmente, para proteger o súbdito português.
De tempos em tempos os portugueses, dada a ameaça proveniente
por parte da Holanda, empreendiam tentativas de concluir um
acordo com ela, porém, com a condição indispensável
de que ela reconhecesse a sua dependência da coroa portuguesa
e pagasse anualmente um tributo. Ela ficou indignada com essa
condição, declarando que era uma soberana independente
e que “poderiam propor-lhe tal apenas se tivesse sido vencida
pela força das armas, coisa que está muito longe
de se concretizar, já que ela não só tem
boas tropas como também audácia mais que suficiente
para fazer arrepender os seus inimigos”. Nos inícios
de 1626, os portugueses prepararam uma expedição
militar bem apetrechada que expulsou Nzinga das ilhas do rio
Kwanza, porém, sem a ter conseguido derrotar. Ao recuar
para o interior do país, ela montou posições
no nordeste.
Consolidadas as suas posições no litoral, os portugueses
alargaram ainda mais o tráfico de escravos; os destacamentos
de “pombeiros” arruinavam os povoados locais. Além disso,
o facto de “Dom Felipe”, um fantoche baptizado que não
pertencia à dinastia tradicional e, consequentemente,
não possuía a graça de “santo rei-sacerdote”
capaz de provocar a chuva e garantir o bem estar do povo, ter
sido nomeado soberano do Ndongo, provocou descontentamento tanto
dos aristocratas como da gente simples. Resultou disso uma fuga
generalizada para o lado de Nzinga.
Progredindo em direcção a nordeste do Kwanza,
conquistando as tribos locais e atraindo para o seu lado os
jagas, um povo guerreiro de combatentes audazes e hábeis,
ela instalou-se, em 1630-1635, nas montanhas de Matamba, tendo
criado uma unidade política forte e estável. Segundo
alguns investigadores, tratava-se de uma espécie de estado
semi-feudal hierárquico. A própria Nzinga tinha
o direito de decidir sobre a vida ou morte dos seus súbditos,
era considerada proprietária de todos os bens que estes
possuíam, sendo obrigados a cultivar as terras três
vezes por semana para produzir produtos alimentícios
para a corte. As testemunhas afirmavam que a sua corte era tão
numerosa como as cortes reais europeias, incluindo pessoas “cujas
qualidades e obrigações lhes davam o direito de
se considerarem nobres”.
Nestas regiões mantinha-se o direito materno (em alguns
locais mantém-se até hoje), baseado na consideração
da linha matrilinear e, por consequência, uma posição
relativamente livre da mulher na família e na sociedade.
No Reino da Matamba, a mulher não só estava à
frente do país como ainda para cada cargo eram designados
“co-governantes” – um homem e uma mulher. A instituição
de “co-governantes” se mantinha até aos finais do século
passado, a norte, nas etnias lunda, luba e kuba
– bacia do rio Congo, e em Buganda (território do actual
Uganda), ainda até aos meados deste século. As
mulheres também tomavam parte nas guerras; no tempo de
paz as senhoras faziam competições em força,
habilidade e audácia, para as quais saíam vestidas
e armadas como amazonas. Elas montavam uma batalha em que a
rainha, embora já com o fardo de mais de sessenta anos,
revelava a mesma coragem, força, habilidade e agilidade
que tivera aos 25 anos”.
Tendo consolidado o seu estado, Nzinga encabeçou a união
de Matamba com o seu vizinho a Norte, o Congo, Cassange (situado
no centro da Angola actual) e com as tribos do Leste formando
assim uma coligação anti-portuguesa. A primeira
ofensiva não foi bem sucedida devido às contradições
no seio dos aliados: o soberano de Cassange, aproveitando a
ausência de Nzinga, devastou as terras de Matamba e mais
tarde recebeu calorosamente os mensageiros do novo governador.
As tentativas desta missão especial enviada com o fim
de obrigar Nzinga a aceitar a paz falharam (embora durassem
vários meses). Uma testemunha escreveu que “Nzinga que
era cheia de inteligência e dominava perfeitamente a arte
de ironia, respondeu que conhecia muito bem a força e
a audácia dos seus inimigos e desejaria ter a honra de
ser aliada da coroa portuguesa... mas, considerava justo ver
satisfeitas, através do tribunal ou com as armas nas
mãos, as suas pretensões sobre as províncias
que os seus antepassados possuíram em paz”. Ela estava
decidida a continuar a luta.
Em Maio de 1641, os holandeses voltaram a aparecer ao largo
de Luanda, tendo capturado uma caravana de vinte navios, além
“da grande e linda cidade com 5000 casas de pedra, grandes e
lindas... com cinco castelos e sete baterias com cerca de 130
canhões e 60 fuzis”. Logo em seguida, eles apoderaram-se
também da fortaleza de São Felipe de Benguela.
Nzinga soube aproveitar habilmente esta situação,
tendo proposto aos holandeses unir os esforços para criar
uma união dirigida contra os portugueses, à qual
o soberano do Congo em breve aderiu. Os holandeses mandaram
um destacamento de 300 soldados que ficou sob o comando dela.
Ela conseguiu estabelecer o controlo político sobre a
maior parte do litoral e do interior do país e, facto
de maior importância, sobre as principais rotas de comércio.
Ela concentrou nas suas mãos todo o comércio (incluindo
o mais lucrativo, o comércio de escravos, já que
ela era pessoa da sua época). Os lucros que ela obteve
permitiram-lhe consolidar ainda mais o seu estado e sobretudo
o seu exército. A fortaleza de Massangano era a única
coisa que continuava na posse dos portugueses.
Os portugueses viram-se obrigados a pedir o envio de reforços
do Brasil. Mas nem sequer este auxílio ou recrutamento
do soberano de Cassange ajudou. Em 1647-48, os exércitos
locais obtiveram várias vitórias importantes.
Para que a vitória fosse total, era necessário
conquistar a fortaleza de Massangano. A tentativa de organizar
uma intentona dentro da fortaleza empreendida pela irmã
de Nzinga, Fungi, que durante muitos anos estava aprisionada,
foi descoberta, sendo Fungi executada. Além disso, em
Agosto de 1648, chegou do Brasil Salvador Correia de Sá,
designado novo governador, à frente de uma forte esquadra
e um numeroso destacamento. Os portugueses apoderaram-se de
Luanda, uma vez que a guarnição holandesa foi
enfraquecida com o envio de uma parte das suas tropas para as
portas de Massangano. Ao terem tido notícia da queda
de Luanda, “eles... abandonaram os negros que decidiram não
aceitar a capitulação”. Logo a seguir, um outro
aliado de Nzinga, o soberano do Congo, foi obrigado a assinar
um acordo humilhante com Salvador Correia de Sá.
Nzinga regressou à Matamba, tendo-se recusado a reconhecer
tal acordo, exceptuando algumas cedências: em particular,
foram adoptadas as leis que proibiam os cultos tradicionais.
Em 1656, o Conselho do Governador, em Luanda, voltou a exigir
que Nzinga assinasse um acordo nos termos do qual ela estaria
obrigada a relançar a comercialização de
escravos para os portugueses, pagar anualmente um tributo e
jurar ser “amigo dos amigos e inimigo dos inimigos” dos portugueses.
Nzinga recusou-se categoricamente a reconhecer-se vassalo dos
portugueses. O acordo, que acabou por ser assinado em Abril
de 1657, era “digno”: ela estava livre de pagar o tributo, Matamba
continuava independente. A última batalha, bem sucedida,
da rainha, já idosa, teve lugar no mesmo ano, contra
os chefes dos jaga que sempre falhavam ao seu compromisso
de não devastar Matamba.
Ela respondeu ao padre Antoine Gaete, missionário católico
que elogiou a sua coragem: “Agora estou velha, padre, e mereço
indulgência. Quando eu era jovem, nunca ficava atrás
de qualquer jaga na rapidez de andar e na habilidade da mão.
Havia tempos em que não hesitava em fazer frente a 25
soldados brancos armados. É verdade, não sabia
manejar fuzil, mas, para desfechar golpes de espada também
são necessárias a coragem, audácia e razoabilidade”.
Passou os últimos anos da sua vida em paz, tendo estabelecido
relações comerciais com os portugueses e autorizado
a cristianização do país. Ana Nzinga Mbandi
Ngola faleceu a 17 de Dezembro de 1663. Tinha por volta de 81
anos de idade; durante quarenta destes longos anos foi soberana
absoluta do país, tendo levado durante trinta e um anos
uma luta desigual mas heróica contra os colonizadores
portugueses e seus aliados.
A nova ofensiva dos portugueses no interior do país,
da actual Angola, deparou-se com a resistência da população
de Matamba, que estava encabeçada pelos sucessores de
Nzinga, sua irmã Cambo (baptizada com o nome de Bárbara)
e seu filho Ngola Canini (baptizado com o nome de Francisco
Guterres). Este chegou a proibir a entrada dos portugueses nas
suas terras, ordenou atacar as caravanas de escravos e pô-los
em liberdade. Os portugueses, que tinham enviado um forte destacamento
contra ele, foram derrotados nas imediações de
Cotolo, em 1681. Porém, o próprio Francisco acabaria
por morrer naquela batalha.
Sucedeu-lhe sua irmã, Verónica Guterres. Receando
a feroz vingança, ela enviou, em 1683, uma missão
para Luanda propondo estabelecer paz eterna. O acordo proposto
pelo governador incluía a exigência de vassalagem,
além da livre passagem das caravanas comerciais por terras
de Matamba. O acordo não chegou a ser assinado.
No entanto, ainda durante um longo período de tempo deflagravam,
de vez em quando, rebeliões contra os portugueses. Os
rebeldes atacavam os traficantes de escravos e os missionários
(que muitas vezes eram as mesmas pessoas), destruíam
as igrejas, proibiam que os estrangeiros aparecessem nos seus
territórios. Em resposta, os portugueses lançavam
operações punitivas cruéis: segundo testemunhas,
durante uma destas operações mais de 150 aldeias
foram queimadas e alguns milhares de pessoas foram feitas escravos.
Foi só nos fins do século XVII que Matamba e as
regiões vizinhas ficaram sob o controlo total de Luanda.
Tradução do artigo de Eleonora Lvova, publicado
na brochura do Instituto dos Países de Ásia e
África, da Universidade Estatal de Moscovo (MGU), intitulada
“A Arte Militar na Cultura dos Povos da África Sub-Sahariana”
Páginas 29 a 35.
Embaixada da Angola na Rússia, 2003-2004
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